
By Samuel Saraiva
Gazing with a lost look into a warm night between spring and summer, a restlessness came to my mind, one that perhaps deserves to be recorded as a question addressed to reason itself: why so many fears, so many misgivings, and so much submission to the judgment of others, when many of the opinions that imprison us come from beings who have never managed to comprehend themselves? We bow before judges who walk equally blind, fumbling in the dark, and we allow the incomprehension of others to serve as the compass for our journey. This is not merely an existential miscalculation; it is a desecration of one’s very being.
Time slips away, slow and implacable, silent, like fine sand sliding through the narrow neck of an hourglass that measures it until it runs out. Yet the tragedy lies in the fact that the glass holding it is opaque: we do not know how much sand remains in the top bulb. Everything transforms in a dizzying metamorphosis, whose meaning seems to impose the very ephemerality of life within a universe where nothing is static. We attempt to solidify love, bonds, and memories, but reality operates in an unyielding liquidity.
What remains, then, is an unmistakable sense of abstraction: in the brief interval where reason tries to grasp the meaning of things, everything already begins to dissolve. The moment reason attempts to formulate the meaning of an instant, it has already become the past. Between the first and last breath, what we call life is perhaps nothing more than a lapse of perception before the immensity of the incomprehensible, a match struck in the cosmic darkness.
Everything follows the indecipherable designs of a cosmic and dimensional journey that, at its core, we travel alone—sustaining a radical solitude— or for a brief time, alongside another soul with no sense of their own true north, as dictated by the different faces of convenience. Two castaways holding hands to ward off the cold of the unknown.
It is part of the cruel enigmas of the universe, of this mechanism that entirely eludes our understanding, that at certain moments these hands that were once intertwined untwine. Without logical explanation, the touch ceases, leaving bodies, minds, and souls suddenly free as they levitate, drifting in completely different directions, until they disappear from the reach of our eyes into the infinite firmament.
Under the indifferent gaze of the universe in which we lose one another, orbits that for a fleeting moment crossed drift apart in silence. There is no collision, no thunderous crash; there is only the unbearable weight of the vacuum occupying the space where the touch once lived. This silent disconnection is the rule, an inevitable return to the original condition of solitude in fullness. We are all wandering satellites, condemned to an isolation that no illusion of togetherness can truly shatter. On the grand stage of immensity, estrangement is the norm.
Along the path of this unavoidable separation, we leave behind everything we once believed made sense, until distance and absence erase memories and legacies as though they had never existed. Forgetfulness is the second death, and perhaps the cruelest, for it blots out the trace of the fire of yesteryear as if it had never burned.
And perhaps it is precisely this awareness that wounds us most: the certainty that the opportunities we failed to live, feel, or express—out of fear, cowardice, or a lack of lucidity—will never return, an irresponsible waste of the most precious asset: life. We thus commit the capital sin against our own soul:
- What was unlived is lost in absolute silence.
- What was unfelt, because it was stifled by the fear of ridicule or by hypocritical conventions, dies before ever being born in the womb of possibility.
- And what we did not dare to be, conspiring against our own essence for fear of others’ deductions, is perhaps the truest part of us that vanishes without ever having had the chance to exist.
We trade the gold of authenticity for the gravel of social belonging, carrying with us foolish pride, appearances, and patterns reduced to utter exhaustion before crossing the finish line, having developed so little of our consciousness and intellect—limited almost like automatons useful only for processing food and discarding it as waste that pollutes the environment in which we exist.
Meanwhile, the stars will continue to shine in the firmament, indifferent to our anxieties, vanities, and pretensions. Their silent permanence before the cosmic vastness exposes the fragility of our surreal illusion of importance, control, and meaning. This celestial silence is not cruel; it is merely a mirror reflecting our absolute insignificance to the cosmos—which ought to grant us not despair, but the absolute most freedom. If the universe does not care, why not dare to be true?
Perhaps the greatest drama of existence lies not in death itself, but in the belated realization—which frequently visits us only when the body already signals fatigue—that we spent far too much time fearing unreasoned and petty opinions, obeying social constructs that repress the only thing within us that was truly vibrant.
In the end, life does not return what was refused by the soul. Time does not reopen the doors we closed out of fear, cowardice, or deficient self-esteem. And the universe, impassive, will follow its eternal course, while what we were—or failed to be—will dissolve into dust carried by the unpredictable winds of eternity.
Let this manifesto not be a lament, but a breaking point. When the dust of vanities settles and the winds of the infinite finally carry away what is left of us, let the cosmos bear witness that, in the brief lapse where our hands were held or released into the void, we dared to belong to ourselves. It is up to us to choose whether we vanish as a grey echo of others’ wills, or as someone who dared to burn with their own light. The journey began in silence and will end in silence; what we do in the interval is our sole and true sovereignty.
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Português
A Ampulheta da Razão e o Vazio Cósmico
Contemplando com o olhar perdido em uma cálida noite entre a primavera e o verão, veio-me à mente uma inquietação que talvez mereça ser registrada como uma interrogação dirigida à própria razão: por que tantos medos, tantos receios e tanta submissão ao julgamento alheio, quando muitas das opiniões que nos aprisionam vêm de seres que jamais conseguiram compreender a si mesmos, nem sequer entender por que existem ou existiram? Curvamo-nos diante de juízes que caminham igualmente às cegas, tateando no escuro, e permitimos que a incompreensão alheia sirva de bússola para a nossa jornada. Isso não é apenas um erro de cálculo existencial; é uma profanação do próprio ser.
O tempo se esvai lento e implacável, silencioso, como a areia fina deslizando pelo diminuto espaço de uma ampulheta que o mede até esgotar-se. Mas o drama reside no fato de que o vidro que a contém é opaco: não sabemos quanta areia resta na parte superior. Tudo se transforma numa metamorfose estonteante, cujo sentido parece impor a própria efemeridade da vida, em um universo onde nada é estático, que não para a permanente transformação que o rege. Tentamos solidificar o amor, os vínculos e as memórias, mas a realidade opera em uma liquidez implacável.
Resta, então, a sensação inequívoca de abstração: no breve intervalo em que a razão tenta apreender o sentido das coisas, tudo já começa a se diluir — os sentimentos, as pessoas, as memórias, os vínculos, a razão dos apegos e o próprio significado da existência. No instante em que a razão tenta formular o sentido de um momento, ele já virou passado. Entre o primeiro e o último suspiro, aquilo que chamamos de vida talvez não passe de um lapso de percepção diante da imensidão do incompreensível, um fósforo riscado na escuridão cósmica.
Tudo segue os desígnios indecifráveis de uma viagem cósmica e dimensional que, no fundo, percorremos sozinhos — sustentando uma solidão radical — ou por algum tempo, junto a outro ser sem noção do próprio norte, para uma companhia temporária e substituível conforme impõem as diferentes faces da conveniência. Dois náufragos que se dão as mãos para aplacar o frio do desconhecido.
Faz parte dos enigmas cruéis do universo, dessa engrenagem que nos foge totalmente à compreensão diante da imensidão, que em alguns momentos essas mãos que estiveram entrelacadas se soltem. Sem uma explicação lógica, o toque cessa, deixando corpos, mentes e almas subitamente livres ao levitarem, seguindo rumos completamente diferentes, enquanto desaparecem — devagar, mas de forma definitiva — do alcance dos nossos olhos no firmamento infinito.
Pelo caminho dessa separação inevitável, deixamos para trás tudo aquilo que um dia acreditamos fazer sentido, até que a distância, a ausência e a incapacidade humana de compreender o próprio significado apaguem memórias e legados como se jamais houvessem existido. O esquecimento é a segunda morte, e talvez a mais cruel, pois apaga o rastro do fogo de outrora como se ele nunca tivesse queimado.
E talvez seja justamente essa consciência que mais nos fere: a certeza de que as oportunidades que deixamos de viver, sentir ou expressar — por medo, covardia ou falta de lucidez — jamais regressarão, num irresponsável desperdício do bem mais precioso: a vida. Cometemos, assim, o pecado capital contra a própria alma:
- O que não foi vivido se perde no silêncio absoluto.
- O que não foi sentido, por ter sido cerceado sem nenhum sentido lógico ou razoável, pelo medo do ridículo ou por convenções hipócritas, morre antes mesmo de nascer no útero da possibilidade.
- E o que não ousamos ser, conspirando contra a própria essência por temor a deduções alheias, talvez seja a parte mais verdadeira de nós que desaparece sem jamais ter tido a chance de existir.
Trocamos o ouro da autenticidade pelo cascalho do pertencimento social, levando junto a tola vaidade, as aparências e padrões resumidos à exaustão. Uma engrenagem que mostra realmente a diminuta resistência humana frente à exaustão física, antes de cruzarmos a linha havendo desenvolvido tao pouco a consciência e o intelecto, limitados quase como autômatos úteis apenas para processar alimentos e descartá-los como dejetos poluidores do ambiente no qual existimos.
Enquanto isso, os astros continuarão brilhando no firmamento, contemplados pelos milênios, indiferentes às nossas angústias, vaidades e pretensões. Sua permanência silenciosa diante da vastidão cósmica expõe a fragilidade de nossa ilusão surreal, quase insustentável, de importância, controle e sentido. Esse silêncio sideral não é cruel; ele é apenas um espelho que reflete a nossa absoluta falta de importância para o cosmos — o que deveria nos conferir não o desespero, mas a mais absoluta liberdade. Se o universo não se importa, por que não ousar ser verdadeiro?
Talvez o drama maior da existência não esteja apenas na morte, mas na percepção tardia — que frequentemente nos visita quando o corpo já acena para a fadiga — de que passamos tempo demais temendo opiniões irrazoadas e mesquinhas, padronizadas e rasas, obedecendo a formas sociais que reprimem aquilo que, em nós, era o único pulsar autêntico.
No fim, a vida não devolve o que foi recusado pela alma. O tempo não reabre as portas que fechamos por medo, covardia ou deficiência da autoestima. E o universo, impassível, seguirá seu curso eterno, enquanto aquilo que fomos — ou deixamos de ser — se dissolverá em poeira levada pelos ventos imprevisíveis da eternidade. Cabe a nós escolher se desapareceremos como um eco cinzento de vontades alheias ou como alguém que ousou queimar com a própria luz.
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Español
El Reloj de Arena de la Razón y el Vacío Cósmico
Contemplando con la mirada perdida en una cálida noche entre la primavera y el verano, me vino a la mente una inquietud que tal vez merezca ser registrada como una interrogación dirigida a la propia razón: ¿por qué tantos miedos, tantos recelos y tanta sumisión al juicio ajeno, cuando muchas de las opiniones que nos aprisionan provienen de seres que jamás han logrado comprenderse a sí mismos? Nos inclinamos ante jueces que caminan igualmente a ciegas, tanteando en la oscuridad, y permitimos que la incomprensión ajena sirva de brújula para nuestra jornada. Esto no es solo un error de cálculo existencial; es una profanación del propio ser.
El tiempo se desvanece lento e implacable, silencioso, como la arena fina que se desliza por el diminuto espacio de un reloj de arena que lo mide hasta agotarse. Pero el drama reside en que el vidrio que la contiene es opaco: no sabemos cuánta arena queda en la parte superior. Todo se transforma en una metamorfose vertiginosa, cuyo sentido parece imponer la propia efimeridad de la vida, en un universo donde nada es estático. Intentamos solidificar el amor, los vínculos y los recuerdos, pero la realidad opera en una liquidez implacable.
Resta, entonces, la sensación inequívoca de abstracción: en el breve intervalo en que la razón intenta aprehender el sentido de las cosas, todo comienza ya a diluirse. En el instante en que la razón intenta formular el sentido de un momento, este ya se ha convertido en pasado. Entre el primer y el último suspiro, aquello que llamamos vida tal vez no sea más que un lapso de percepción ante la inmensidad de lo incomprensible, una cerilla encendida en la penumbra cósmica.
Todo sigue los designios indescifrables de un viaje cósmico y dimensional que, no fondo, recorremos solos —sosteniendo una soledad radical— o por algún tiempo, junto a otro ser sin noción de su propio norte, según lo imponen las diferentes caras de la conveniencia. Dos náufragos que se dan las manos para aplacar el frío de lo desconocido.
Forma parte de los enigmas crueles del universo, de ese engranaje que se nos escapa totalmente a la comprensión, que en algunos momentos esas manos que estuvieron entrelazadas se suelten. Sin una explicación lógica, el toque cesa, dejando cuerpos, mentes y almas súbitamente libres al levitar, siguiendo rumbos completamente diferentes, mientras desaparecen del alcance de nuestros ojos en el firmamento infinito.
Bajo la mirada indiferente del universo en el que nos perdemos unos de otros, las órbitas que por un instante se cruzaron se alejan en silencio. No hay colisión, no hay estallido; solo queda el peso insustentable del vacío ocupando el espacio donde antes habitaba el toque. Esa desconexión silenciosa es la regla, en el regreso inevitable a la condición original de soledad en plenitud. Somos todos satélites errantes, condenados a un aislamiento que ninguna ilusión de convivencia logra, de hecho, romper. En el gran escenario de la inmensidad, el desencuentro es la norma.
Por el camino de esta separación inevitable, dejamos atrás todo aquello que un día creímos que tenía sentido, hasta que la distancia y la ausencia borren memorias y legados como si jamás hubiesen existido. El olvido es la segunda muerte, y tal vez la más cruel, pues apaga el rastro del fuego de antaño como si nunca hubiese ardido.
Y tal vez sea justamente esa conciencia la que más nos hiere: la certeza de que las oportunidades que dejamos de vivir, lanzar o expresar —por miedo, cobardía o falta de lucidez— jamás regresarán, en un irresponsable desperdicio del bien más precioso: la vida. Cometemos, así, el pecado capital contra nuestra propia alma:
- Lo que no fue vivido se pierde en el silencio absoluto.
- Lo que no fue sentido, por haber sido coartado por el miedo al ridículo o por convenciones hipócritas, muere antes de nacer en el útero de la posibilidad.
- Y lo que no nos atrevimos a ser, conspirando contra nuestra propia esencia por temor a deducciones ajenas, es tal vez la parte más verdadera de nosotros que desaparece sin haber tenido jamás la oportunidad de existir.
Cambiamos el oro de la autenticidad por el cascajo de la pertenencia social, llevando consigo la tonta vanidad, las apariencias y los patrones resumidos al agotamiento antes de cruzar la línea habiendo desarrollado tan poco la conciencia y el intelecto, limitados casi como autómatas útiles solo para procesar alimentos y desecharlos como desperdicios que contaminan el entorno en el que existimos.
Mientras tanto, los astros continuarán brillando en el firmamento, indiferentes a nuestras angustias, vanidades y pretensiones. Su permanencia silenciosa ante la vastedad cósmica expone la fragilidad de nuestra ilusión surrealista de importancia, control y sentido. Ese silencio sideral no es cruel; es solo un espejo que refleja nuestra absoluta falta de importancia para el cosmos —lo que debería conferirnos no la desesperación, sino la más absoluta libertad—. Si al universo no le importa, ¿por qué no atreverse a ser verdadero?
Tal vez el drama mayor de la existencia no esté solo en la muerte, sino en la percepción tardía —que con frecuencia nos visita cuando el cuerpo ya anuncia la fatiga— de que pasamos demasiado tiempo temiendo opiniones irracionales y mezquinas, obedeciendo a formas sociales que reprimen aquello que, en nosotros, era el único latir auténtico.
Al final, la vida no devuelve lo que fue rechazado por el alma. El tiempo no reabre las portas que cerramos por miedo, cobardía o deficiencia de la autoestima. Y el universo, impasible, seguirá su curso eterno, mientras aquello que fuimos —o dejamos de ser— se disolverá en polvo llevado por los vientos impredecibles de la eternidad.
Que este manifiesto no sea un lamento, sino el punto de ruptura. Cuando el polvo de las vanidades se asiente y los vientos del infinito finalmente se lleven lo que quedó de nosotros, que el cosmos sea testigo de que, en el breve lapso en que nuestras manos estuvieron unidas o sueltas en el vacío, nos atrevimos a pertenecer a nosotros mismos. Nos corresponde elegir si desapareceremos como un eco gris de voluntades ajenas o como alguien que se atrevió a arder con su propia luz. La jornada comenzó en el silencio y terminará en el silencio; lo que hagamos en el intervalo es nuestra única y verdadera soberanía.
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